Encontro com Glória Perez

Pelo fato de estar me recuperando de uma cirurgia no pé esquerdo, fiquei basicamente sem sair de casa por quase dois meses. Tentei da forma que podia me manter ocupado na frente do computador, escrevendo roteiros, vendo filmes, lendo, fazendo trabalhos de edição, e fotografia. Hoje porém, na semana que comecei fisioterapia, sai de casa para algo muito produtivo.

 

Hoje, quinta feira, 19 de maio de 2011 teve um encontro com os profissionais da Rede Globo da área de tele dramaturgia e comércio internacional na UCLA.

 

Glória Perez foi uma das palestrantes num auditório pequeno de apenas 30 pessoas no máximo. Tivemos a oportunidade de conhecer e discutir o trabalho da Gloria. Não somente fizemos perguntas direta para a autora sobre seu processo criativo, como também discutimos a ênfase do mercado da Globo Internacional. Entendemos como esse mercado global esta nascendo e suas perspectivas de crescimento.

 

Pelo fato de ser um auditório pequeno, tive a oportunidade e o prazer de fazer diversas perguntas para a Glória, bem como para os outros profissionais que estavam presentes.

 

Duda Pereira, que é a diretora da Globo Universidades, uma entidade da corporação voltada para a integração empresa-escola, iniciou a palestra dando um panorama geral da rede Globo. Depois ela passou a vez para a Glória Perez.

 

Glória iniciou seu discurso explicando, entre outras coisas, que o trabalho dela como roteirista se baseia em 2 temas: o confronto entre tecnologia e humanidade, e o conflito humano entre culturas distintas.

 

Para abordar tais temas, a autora se focaliza na emoção. Tal emoção é adquirida no conflito do relacionamento dos personagens com outros personagens e dos personagens com seus próprios obstáculos internos. A história é contada através dessas emoções, e a audiência faz as conexões intelectuais necessárias para se entender a mensagem racional que esta sendo proposta subliminarmente. Emoção é uma linguagem universal, e desta forma existe um apelo comercial globalizado para tais produtos televisivos.

 

Glória nos explicou sobre como as telenovelas prendem a atenção dos telespectadores, fazendo uma comparação muito interessante com os folhetins. Eu aprendi que a narrativa dos folhetins e das telenovelas se assemelham porque ambas têm uma técnica de utilização de ganchos ao final dos capítulos e uma abordagem de temas populares e polêmicos. A intenção desse tipo de narrativa é prender a atenção da audiência e gerar a necessidade de se saber mais sobre o assunto. Cada sentença que a Glória dizia, era como se fosse um mês de faculdade. Aprendi bastante, porém uma das partes mais interessantes para mim foi quando pude fazer perguntas.

 

A primeira pergunta que eu fiz foi sobre a relação da autora com os personagens que cria. Glória nos explicou que ela se entrega 100% para a história durante todo o tempo que esta envolvida na novela. Pelo fato de trabalhar sozinha, ela acaba não tendo muito tempo para sair de sua rotina como roteirista em época de produção. Mesmo sem tempo para atividades sociais, a autora não se isola do mundo como alguns roteiristas fazem. Fiquei abismado ao saber que mesmo com o desafio de entregar um capítulo de uma hora por dia, ela mantém contato fiel com o seu público. Eu presumi que a autora faz isso pois é através desse contato que ela acaba dando forma e destino para suas histórias. Glória nos disse que depois da novela estar pronta, ela sente uma dificuldade de se desprender de seus personagens. Muito engraçada e extrovertida, Glória comparou todos os finais de novela com o Titanic. “No fim o navio afunda e todos morrem” salientou a autora. Ela completou com a declaração de que as vezes ela volta a escrever capítulos de personagens que marcaram sua carreira, só para saber como os personagens estão.

 

A segunda pergunta que fiz foi sobre os problemas que ela tem quando algo não dá certo dentro de seu processo criativo. Por exemplo, se ela tem a intenção de gerar uma certa emoção na audiência e acaba errando no efeito procurado. Sua resposta foi que sempre que algo não dá certo a culpa é do autor. Ela focaliza sempre na emoção do personagem, com a intenção da audiência se identificar e se emocionar com a situação apresentada. Se algo não dá certo, o que ela faz não é mudar a emoção e sim a forma de contar a mesma emoção.

 

Fiz mais uma pergunta sobre censura. Como os temas que ela apresenta são sempre muito polêmicos, eu quis saber se ela sofreu qualquer tipo de restrição sobre alguma idéia que ela apresentou. A reposta dela foi clara e simples. Ela nunca sofreu nenhum tipo de censura. A única restrição que aparecia esporadicamente era sobre algum tema que a sociedade ainda não estava preparada para entendê-lo. Um exemplo foi a novela Barriga de Aluguel que ela apresentou para ser produzida, porém na época o assunto era muito avançado para a audiência. Ela guardou o tema na gaveta e, quando o assunto já era de maior conhecimento público, a novela foi ao ar.

 

Conversamos também com o diretor da Globo Internacional Guilherme Bokel que nos explicou sobre a distribuição e produções internacionais das novelas da Globo. Ele abriu nossos olhos para o fato de que as novelas Brasileiras não podem e não devem ser comparadas com “Soap-Operas” americanas. A tradução do termo novela para soap-operas foi feita de maneira incorreta dando a impressão para uma grande parte do público norte americano que uma novela como “O Caminho das Índias” seria comparável com a soap-opera “Days of ours Lives”. Uma das grandes diferenças é que soap-operas americanas são infinitamente mais longas do que as novelas brasileiras. No Brasil uma novela tem a duração de no máximo 8 meses, onde a soap-opera Days of our Lives está no ar desde 1965. Porém a diferença primordial nessa separação é o fato de que a qualidade de produção é simplesmente incomparável. Novelas são astronomicamente melhor produzidas e custam muito mais. Como ilustração Guilherme nos disse que um capítulo de uma novela no Brasil custa por média 300 mil dólares. Se essa mesma produção fosse feita nos Estados Unidos, o valor aumentaria para uma média de um milhão e meio de dólares por capítulo.

 

Algo muito interessante que Guilherme nos disse foi o processo como as novelas da Globo estão entrando no mercado mundial. Atualmente quando a novela é produzida, o foco é somente no mercado brasileiro. Depois que a novela é finalizada, existe uma análise para se verificar o apelo do tema para o mercado internacional. Se existe uma demanda, a novela vai para o mercado internacional, onde o foco é na reedição dos capítulos. Em geral uma novela para o mercado internacional deve ter 150 capítulos com duração de 45 minutos cada um. Para cada território existe uma edição diferente de acordo com o gosto estético e narrativo da audiência. Por exemplo, no México a edição tem que ser mais direta sem muitos inserts fotográficos, pois a linguagem de edição da televisão mexicana fez com que o público se acostumasse com uma forma menos artística de expressão visual. Outra ênfase é na parte de áudio, onde as vozes são dubladas e as músicas substituídas por outras do território onde a novela será veiculada.

 

Algo que me deixou muito empolgado foi que a Globo esta abrindo as portas para produções internacionais. A globo internacional já fez diversas co-produções com outras emissoras internacionais. Um exemplo é uma co-produção da Telemundo refazendo a novela O clone. No momento a Globo está abrindo as portas para o mercado internacional com a idéia de produzir conteúdo no mercado estrangeiro.

 

A palestra foi muito interessante e abriu muito os meus olhos para novos horizontes. Para mim foi uma das melhores coisas que aconteceram desde que eu me machuquei jogando basquete e tive que fazer uma cirurgia no meu tendão de Aquiles. Eu tive o prazer de entrar em contato com uma das melhores escritoras do mundo, conversei com profissionais de alto padrão e pude estimular meu intelecto. Eu sai de lá com o pensamento que a Glória na verdade não escreve os personagens e sim os personagens que acabam por escrevê-la. De uma certa forma, nos tornamos o que criamos. Eu me machuquei, mas não é o machucado que me define e sim o que crio dele. Sei que tenho uma longa jornada para me recuperar, porém trilharei esse caminho passo a passo, mesmo que com o pé doendo.

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